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despedida
a moça da funerária me disse: junta bem os pés e espera um pouquinho que logo logo você já endurece e não precisa mais se preocupar. enquanto isso, ia arrumando alguns apetrechos, provavelmente para bloquear meus orifícios e me maquiar para o ritual todo. a princípio colaborei, e até ajudei-a no que foi preciso, mas sentir meu corpo enrijecendo-se não foi de todo agradável...
Escrito por Thiago às 01h07
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ow
vem! vem! vem! ele disse pro cachorrinho, batendo as mãos nas coxas.
é comigo? - o cachorro pensou um pouco, antes de se jogar nos seus braços em câmera lenta. a língua lambendo a cara áspera.
às vezes eu fico com a língua toda marcada quando você não faz a barba - o cachorro pensou mais.
chega tobi! chega tobi! ele disse pro cachorrinho, rindo e limpando a cara babada. levantou-se e saiu rápido, rápido, rápido.
Escrito por Thiago às 11h37
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meu doce
vinho com chocolate, foi o que quis dizer. entrar na boca de alguém, e provocar ondas de impulsos nervosos contraditórios. o gostinho do chocolate meio amargo depois que vc engole parece que se mistura à borra do vinho tinto forte.
lembra de como era bom fazer castelo de areia na beira da praia. um amigo do pai lhe disse uma vez que os castelos eram oferendas para o mar, um presente para ele saborear ao poucos. lambidas progressivas.
quando sinto impulsos nervosos contraditórios com a sua presença na minha boca, tento aprender a saborear aos poucos, tento não sofrer com a certeza de que um dia você acaba.
Escrito por Thiago às 16h06
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embalos
queria limpar o cinismo de mim. queria que fosse puro, que me divertisse mais com uma noite para se beber moderadamente e música ruim. eu tenho certeza de que a música era ruim, me disseram uma vez.
chega de ser almofadinha, chuchu. se pica daqui. se coça. e vai ser feliz antes que termine a primavera, porque o medo da breguice...
eu ia me costurando por dentro com afirmações de pára-choque de caminhão. queria tatuar as mucosas como os pára-choques. e para não dizer que não me diverti, pedi uma smirnoff ice. pelo menos não ia ficar arrotando peixe na pista.
foi quando, nada.
na saída bateram no pára-choque do meu carro, parado no farol.
Escrito por Thiago às 13h52
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Refluxo noturno
assim mesmo, enquanto dura o refluxo gastrointestinal. é comum, todo mundo tem, diz a revista. então posso arrotar mais tranquilo, e se me perguntarem do meu hálito de bueiro, digo: você não sabe?
Eu sonhei que era um monte de letras, e dirigia meu carro. Fumando. Os cabelos balançando no vento, essas coisas. Pensava bem sobre como as coisas são, né. E quando veio a batida, quando o carro bateu, quando... Eu me derrapei todo no chão, um monte de ais. Como sopa de letras que alguém derrama de propósito no asfalto. E perguntaram: você não olha por onde anda? Será que vc já não está na idade de responder pelo que faz? Quantos anos você tem menino?
Não conseguia dizer nem que sim nem que não. Me organizava no chão como numa losa (ou lousa?) Um ginástica terrível.
Que descompromisso, a moça gritava com a sandália na mão, que falta de engajamento.
(acabou assim com três pontinhos. Juro.)
Escrito por Thiago às 01h47
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modelito
ontem, deitado. meu osso começou a espreguiçar, e eu fui me vestindo de mim. um macacão de carne bem ok, super funcional. as fibras seguem contornos bem precisos, com uma costura tão leve que consegue atravessar tecidos de texturas muito diversas, e com um acabamento muito discreto.
é assim ó:
por sacro-cóccix indo pro púbis a costura se divide em duas que passam pouco acima dos trocanteres maiores e se posteriorizam na direção dos ísquios. então de novo: ísquios-cóccix-púbis, passando por dentro do intestino até subir pelas as vértebras dorsais por trás, até a primeira costela. atravessa o pescoço por dentro, se abre pélas laterais das clavículas`à frente, abrindo o peito, e logo que chega no ombro, contorna os úmeros por fora, uma manga meio regata mesmo, passando por dentro da glenóide para ir por trás do pescoiço de novo, nuca, occiptal-topo da cabeça, escorrendo pelas laterais do nariz, perto da raiz dos dentes caninos para ir para trás das orelhas por baixo do maxilar, abrindo olhos narinas e ouvidos, para depois mergulhar de novo pelo esôfago, dentro de um gole de saliva que escorre até o sacro, onde se solda ao início da linha elegantemente.
fiquei tão feliz com o modelo, que hoje saí no parque com o cachorro.
Escrito por Thiago às 16h31
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um dia eu volto
eu quis me dar ao luxo de não precisar mais dos seus beijos. liberdade é sexo sem compromisso. sei que poucas me olham como você me olhou, e a maioria não acha nada de belo no meu gingar, até riem de mim.
não é nada disso.
eu gosto de comer outro bicho e depois passear sem destino. eu gosto da praia, gosto dos restos que esquecem na areia e fico feliz quando alguém percebe a minha singularidade. penso em conhecer novos lugares, mas sempre me esqueço de ir. e quando te deixei, foi por falta de memória, foi como decidi te escrever agora. quando dei por conta, já tinha sido. mas foi legal te encontrar na rua de novo, valeu. te cuida, ok?
Escrito por Thiago às 08h26
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n'ovo
eu virei ovinho ali mesmo. gostoso, me senti gosma que decantava. cantei alto então, os outros mereciam ouvir, a voz era mais do que eu mesmo supunha, eu mesmo era mais. doze vezes depois, quando a multidão secou, a rua à noite, o farol abriu verde. o guarda não podia me ver ao telefone com você, então coloquei teu som entre as minhas pernas e senti calor. combinado?
quando viro ovo, você sabe, o mundo fica tão longe, as coisas flutuam num barquinho. eu queria ser frito então. os mesmos desejos de me abrir e ser sacrificado em nome da festa. mas por enquanto, enquanto a gente se cansa um pouco junto, vou emagrecer de alegria, vou ficar mais um pouco por aqui. um pouco pra lá, não, sem esse braço, mais pra lá, e pronto. crec.
Escrito por Thiago às 15h11
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eu bebi bem. depois meditei sobre os pedestres, observei suas formas e comentei com um anjo que se sentou ali. nos dias seguintes, pedro seguiu pela praia desfilando seus panos para o mar e o vento. um tuareg caiçara, uma deusa baiana. liguei pra ela já eram duas e meia e ela me disse que estava bem, já tinha conhecido homem, e descansava numa pousadinha de 20 reais.

Escrito por Thiago às 12h08
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hoje.
ontem também. deu vontade de ser menino como antigamente, de sonhar em ir pra longe, de ser velho feliz como eu sempre quis.
cada vez mais ser estrangeiro, para ver tudo fresco no mundo.
Escrito por Thiago às 20h21
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póstuma
se agora é uma lembrança, aqui é um sonho que voa no meu leito de morte. memórias póstumas da sequência numérica de escolhas que assisto todo tempo, que transgrido em segredo. como um ísquio que se rebela durante o velório. conspiro para que seja o melhor, mas às vezes é a cara feia de medo que se mostra pra me zombar. que eu assuma tudo para ter clareza do que deixar viver e do que deixar apodrecer em mim. verde. para gerar bom adubo para o futuro.
sujeira é coisa fora do lugar, não é má na essência. só precisa ir para o seu lugar, na prateleira certa.
a minha família é o mundo. meu pai é o mundo homem, minha mãe o mundo mulher e minha irmã é o meu espelho.
eu posso organizar, posso fazer faxina pra mim mesmo, e morrer em paz toda hora, com a clareza de quem foi um orgasmo, de quem derrete a casinha do tempo.
Escrito por Thiago às 13h38
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verde
já era de manhã quando decidi deixar que apodrecessem. em cada cantinho surgia vida verde daquilo que eu imaginava que devia ser exterminado. pensei que os novos odores que ocupavam minha casa podiam ser perfume, que podiam em algum reino distante serem perfume de princesa. e nada de veja, nada de bombril por aqui. tudo agora é verde, tudo agora vive.
Escrito por Thiago às 13h37
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risoto
tudo está em desenho, que não é um desenho do passado, desses que ficam amarelos. mas porque tudo se arrepia com aproximações, tudo se desenha, e é melhor pensar que por pura felicidade, por amor.
o minotauro está no centro da cidade, mora num apartamento quarto e cozinha num treme-treme (vc fala tréme ou trême?). E ele treme. Abstinência é foda. Já faz meses que o governo atrasou a entrega das virgens, e ele se vira com as pombas que cria na lavanderia.
Risoto de virgens suicidas: meio quilo de arroz cateto. meia cebola roxa cortada ao meio meio fio de azeite extra-virgens meio cheiro-verde meio quilo de queijo parmesão meia garrafa de leite de côco meio quilo de virgens sem pele e espinhas
depois de refogar os tempêros, puxe as virgens na panela por alguns instntes, até soltarem lágrimas. tampe e deixe o vapor cozinhar um pouco. ponha o arroz e vá acrescentando o leite de côco em bocados. quando estiver cozido, ponha o queijo parmesão e deixe descansar por 10 minutos com a panela fechada. sirva em seguida.
Escrito por Thiago às 23h19
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passo
há todo tempo eu tenho consciência que no leito da morte, ou no sonho que vou sonhar eternamente depois me lembrarei dos detalhes. como se perdoar pelo tempo perdido? pela solidão, pela ignorância? aqui, no leito de morte, eu penso em como cada momento poderia ter sido saboreado como os animais saboreiam.
um cão numa rua late num ciclo repetido, todos os dias, estimulado pela passagem do carteiro.
se eu tivesse sido um cão, ou um gato, seria feliz em redescobrir a cada instante que tudo é sempre diferente. não teria a facilidade de decorar textos, mas poderia sim repetir eternamente um texto misterioso, escrito no minúsculo das células. lá no meu sangue tem tudo o que eu preciso saber. sem carpintaria, sem arte que se elogia. ela jorra todo o tempo, e a inteligência vai dando nome e colocando as pedras nos rios, transformando o abismo numa escada com corrimão, às vezes escorregadia, às vezes tão tola que só se consegue passar correndo de dois em dois degraus, como numa leitura dinâmica.
Escrito por Thiago às 22h22
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registros
é porque você é chato, eles disseram em uníssono. o elevador era muito espaçoso, tinha até mesa de centro. o meu quarto agora era vazio, era cheio de espaços, atrás das minhas costas, entre a minha cabeça e o teto. e as obrigações ficavam ali na porta epserando pra entrar e arrumar tudo de um outro jeito, sempre mais apertado do que eu queria, mais do que eu suportava, na verdade, e saltei da janela.
ontem fui jantar com meus pais, de saudade. ganhei um porquinho desses de gesso, e vou colocar fortunas naquele buraquinho, ah eu vou. já fiz as contas e acho que com o seu recheio posso pagar as minhas dívidas com o governo, e ter meu cpf de volta.
Escrito por Thiago às 21h50
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fácil
tava eu, a madrinha, o zé. no ônibus, que a gente cansa a pé tão longe. e ia, e ia. plié. pés paralelos, bacia em movimento constante, acompanhando as rodas. nós economizando articulações para os próximos anos. ai, que bom, um deles pensou alto, os joelhos gozando.
quando chegamos em casa, já estava tudo pronto.
pão, maionese, soda, cigarro.
foi tirar da embalagem e pronto, mais felizes ainda.
Escrito por Thiago às 23h01
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calda
eu só queria derreter em calda quando o filme passava. queria ser doce, fÃcil. um ser que escorre e se cansa de nada, disposto a me derramar em qualquer superfície que me abrace. facinho facinho.
1 copo de morangos amassados, esmagados, suculentos 1 copo de Ãgua 1/2 copo de çucar (opcional para os incrédulos)
Escrito por Thiago às 00h21
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bolo augusto
here, i'm alive! eu gritei umas vezes. estava a me misturar com ingredientes que não conhecia, e meu corpo já assumia outras cores. nesses momentos, sempre prefiro buscar um distanciamento crÃtico. não preciso me envolver, essa dor não é minha, pensava. mas doÃa: a lâmina do processador de alimentos não perdoava nada, e meus pontos de vista se separavam na massa de:
2 ovos 2 laranjas com casca, sem sementes meio copo de óleo meio copo de leite
this is really happening, happening. sim. aos poucos eu relaxava, e me divertia com as penetrações da colher da madeira. queria mais rápido. vai, vai. desejava.
2 copos de farinha 1 copo de açúcar 1 colher de fermento quÃmico
cresci outro ser quentinho, e logo me transformei de novo em liquÃdos. meus pontos de vista passaram milhares de anos sem se reencontrar. percorreram grandes distâncias em águas sujas até encontrarem os mares.
Escrito por Thiago às 11h03
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formigas
Olha eu observava as tendências daqui do alto da cobertura. Na linha do tempo geológico, não passo de uma formiga lixeira que repete repete até se convencer. Que a roupa está certa. Que vazio na apartamento. Sol quase atravessa cortinas de veludo e aquece os ácaros que colonizam os meus móveis antigos. Mas são as formigas que reclamam do calor, que vejo andarem com sacolas nas calçadas lá embaixo barulhentas. Abro a janela, penso em me jogar e em como seria óbvio. Não. Dessa vez vai apenas a minha saliva, penso ao ver meu cuspe fazer acrobacias e gritar na eternidade de sua queda.
Escrito por Thiago às 09h22
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diabólica morte . I
Quando chamei braço, braço não veio. Veio dor de separação. Aí chamei pé e pé já caia num balde com outros, pra sujar o chão de vermelho. Ouve o som. O som de fatiar a orelha fina, ouve o som. Atrito bonito, o da lâmina na cartilagem. Acaricia o tímpano, e logo o tímpano martelou a poça pra fazer o som de uma bomba. O som devagar que encheu tudo de vermelho. OM. Despede do tímpano. A garganta separa em dois, depois em quatro. Em cada parte um grito. Baixo, que o tímpano não escuta mais. Nem o estalar da separação das vértebras, nem o coração destacar do resto, um ploc, nada. Queria ver, mas a visão diluiu. Olho direito e olho esquerdo eram irmãs, antes de derreterem no suco do estômago. Nem o gosto deles eu senti, porque a língua ficou presa no aparelho de serrar costela e sumiu entre elas. O cabelo no adesivo saiu rápido pra fazer mais macio o travesseiro de apoiar pedaço separado. Onde sentou a bacia, no trono de vermelho magestade, sem coroa. E jogaram por cima mais vermelho, o fígado, uns seis metros de tripa e peças. Enfim, fizeram um pacote bonito de pele recheado de mim, um outro que eu não conhecia, que vermelho escorria.
Escrito por Thiago às 10h36
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